O causo do assalto no Peru

Este causo ocorreu durante a viagem de carro entre São Paulo e Equador, mais precisamente na cidade de Ica, no Peru. Para quem nunca se aventurou a dirigir por aquelas bandas, um aviso: o trânsito é infernal! Só se vê mototáxis, um atrás do outro. Seguia pela avenida que levava ao centro, a rua mais movimentada da cidade. Não tem como não achar interessante e querer registrar aquela cena. As ruas são tomadas por eles, onde há momentos em que simplesmente se estaciona no meio da rua.

Resolvi filmar um trecho com o celular grudado no meio do vidro da frente. Pois bem, celular preparado, vidros laterais fechados e vamos filmar. Quando faltavam cerca de duas quadras para a praça central, o trânsito travou. Mas a quantidade de mototáxis era tão grande que resolvi abrir um pouquinho uma das janelas para tirar uma foto. Sabem aquele “momento turista” que temos quando conhecemos algo novo? Eu estava em um desses, abismado com algo que nunca tinha visto antes. Tira da máquina fotográfica presa à mão, vidro aberto, alguns cliques de foto e…

… isso mesmo. Esqueci por alguns segundos o vidro aberto e o celular no vidro da frente e esse cara de camiseta branca passando na frente do carro um pouco antes resolveu testar a minha coragem. O problema é que o celular continha todos os mapas do Peru e do Equador. Sem ele a viagem poderia ter acabado ali mesmo. Enquanto o salafrário passava pela frente do carro, tive a impressão de que estava olhando uma pickup do lado, e não para dentro do meu carro. Quando percebi a presença dele na lateral já não havia mais tempo para fechar o vidro. Ele colocou a cabeça e metade do corpo pra dentro do carro, finquei a mão no braço dele, mas não tinha como segurá-lo daquela forma. Ele puxou e se safou.

Sabem aquelas decisões que às vezes tomamos no desespero e depois de alguns minutos nos arrependemos enormemente? Pois é!

Não pensei duas vezes. Abri a porta, olhei pra trás, avistei o meliante correndo na rua, dei uma espiada para os lados, como não vi outro suspeito então deduzi que o vigarista estava sozinho. Tranquei o carro e parti em disparada. O gatuno parecia não acreditar que eu correria atrás dele e só começou a se apressar mesmo quando me avistou em sua caçada.

E agora, José? Eu não sabia nem o que gritar. Na hora inventei um “LADRÓN! LADRÓN!“, mas eu nem sabia se era daquele jeito mesmo que se chamava um larápio em espanhol. Ele virou a primeira esquina à direita enquanto eu estava a uns 20 metros dele. Quando também virei a esquina, avistei uma ruela de terra quase vazia. Fiquei com receio de que estivesse me levando para um lugar pior, mas como vi algumas mulheres numa lojinha no meio da rua e no final uma outra rua asfaltada e movimentada, continuei correndo.

Alguma vez o leitor já teve que dar um pique e gritar alto ao mesmo tempo? Se não, faça o teste e entenderá o que passei (de preferência longe de muvucas para não criar confusão, ok?). É difícil! Com o grito, perde-se o fôlego necessário para a corrida. Para piorar, eu estava há 10 dias praticamente sentado no banco de um carro o dia inteiro, imagine a situação!

Enquanto corria nessa rua de terra, comecei a lembrar do carro. Eu sabia que ele tinha insulfilmes de segurança, então, com os vidros fechados, seria muito difícil de alguém quebrar. Mas eu não sabia o que poderia estar acontecendo por lá. Como o bandoleiro que correu com o celular parecia ser muito “pé de chinelo” e nenhum outro apareceu para me abordar até então, resolvi continuar a caçada por mais alguns metros.

O malandro virou a outra esquina à esquerda. Quando eu cheguei nela, um rapaz com cara de playboy, de óculos escuros e em cima de uma daquelas motinhas pequenas elétricas passou do meu lado e falou alguma coisa bem sério. Eu não entendi o que ele disse. Na hora presumi que fosse um comparsa. Parei de correr e pensei em voltar. Nisso o ladrão já tinha virado a outra esquina à direita, a uns 30 metros, e o rapaz da moto foi para o mesmo caminho que ele. Corri mais um pouco, cheguei até essa esquina e havia um grupo de uns 5 homens conversando na calçada. Eles me viram e perguntaram se o cara que tinha passado havia me roubado, respondi que sim e parei por ali mesmo, eu tinha que voltar para o carro. Quando eu estava dando meia volta, começaram a me dizer que havia policiais ali na frente. Dei alguns passos no sentido dos policiais, o mesmo para onde o surrupiador correu, mas eu queria voltar para o carro. Quando dei meia-volta de novo, esse mesmo grupo de homens me alertou que a polícia havia pego o cara. Eu já não estava enxergando muita coisa na minha frente. Faltava-me ar. A visão já estava embaçada. Como eles insistiram para que eu fosse até lá, voltei a correr.

Mais uma quadra e já avistei o rapaz da moto na frente de uma casa e um policial entrando. Fui junto! Chegando nos fundos, uma mulher apareceu gritando para que eu e o policial saíssemos dali. Voltei à porta da casa, confirmei com o rapaz da moto que o rapace estava lá dentro. Eu não sabia se o celular estava lá também, mas precisava correr de volta. Falei para o policial que iria buscar o carro (“Voy coger el coche!… Voy coger el coche!“) e corri de volta. Isso tudo aconteceu em menos de 2 minutos.

Nesse momento já quase não sentia mais as pernas. Passando em frente à ruela de terra pela qual havia passado antes, aquele grupo de mulheres gritou me chamando. Perguntaram o que o rapinador havia roubado, eu disse que um celular e um suporte de carro. E uma delas correu para dentro e voltou com o suporte. Es eso?Sí!!! Eso y un celular. Muchas gracias!!”. Bom, pelo menos o suporte eu havia recuperado, mas o celular eu ainda não sabia. Ao cruzar a esquina correndo, topei de frente com um cara grandão e fortão, cheguei a bater a cabeça no peito dele. Levantei os olhos e o vi me olhando de cara fechada. Pronto! Agora ainda vou apanhar, pensei. “Lo siento! Lo siento!” e me pus a correr de novo, como se estivesse fugindo dele.

Ao chegar na rua onde estava o carro, eu não tinha ideia de que era tão grande, parecia que a esquina em que eu o havia deixado não chegava nunca. E com a visão meio embaçada, não conseguia enxergar mais do que 5 metros à frente. Encontrei! Claro que havia uma porção de outros carros com a buzina no talo sem entender o que estava acontecendo. Entrei e fui dirigindo até a tal casa. Quando estava estacionando, pensei que iria desmaiar. Respirei fundo, desci do carro, entrei na casa de novo. Na porta estava o mesmo policial de antes e já me perguntou se eu iria dar queixa ou se só queria o celular de volta. O rapaz da motinha me incentivava a prestar queixa, já o policial não parecia querer muito. Perguntei como faria, já que estaria retornando ao Brasil em breve, e ele respondeu que eu precisaria continuar no Peru por alguns dias. Então eu respondi que só queria o celular de volta.

Quando cheguei no fundo da casa, um policial vestindo uma farda que parecia ser de chefe saía de um quartinho com o celular na mão e me perguntou se era aquele. Respondi que sim. Ele me entregou. Perguntei se o rapaz estava lá dentro. Respondeu que sim e me chamou. Quando cheguei na porta o rapaz estava de joelhos pedindo desculpas. Disse que a mulher estava grávida, por isso precisava do dinheiro (depois o policial me disse que geralmente usam para comprar drogas mesmo). Eu respondi que ele deveria pedir, e não roubar, pois quando rouba um estrangeiro, nós voltamos com a impressão de que todos os peruanos são ladrões (eu tinha o direito de dar uma liçãozinha de moral nele, não tinha?). O policial concordou comigo. Ele continuou pedindo desculpas. Saímos da casa.

Lá fora eu tentava me recuperar. Os policiais vieram conversar comigo. Pareciam “gente boa”. É claro que a conversa foi sobre futebol, né! Já vieram me perguntando se eu torcia para o Flamengo. Vê se pode uma coisa dessas?!?… CORINTIANO!… respondi… E eles conheciam o Corinthians, estão vendo?!?! Clube de reconhecimento internacional!!!

 

Se quiser ler mais postagens sobre essa viagem, visite: http://www.causosdeviagens.com.br/sampaquito.


 

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