O causo do argentino indignado

 

Esse causo aconteceu numa viagem que fiz de carro de São Paulo à Assunção, capital do Paraguai, em abril de 2009. Era semana santa, estava de folga no trabalho e resolvi pegar a estrada em uma viagem relativamente rápida. Na ida, sem problemas até chegar ao Paraguai. Logo na fronteira em Cidade del Este, após fazer os trâmites das documentações, entro na cidade e um paraguaio vem até minha janela oferecendo produtos enquanto andava no trânsito lento. “Eletrônicos? Eletrônicos?” Não, obrigado. “Celular? Está atrás de celular?” Não, amigo, obrigado. “Roupas? O senhor procura roupas?” Não, não quero roupas. “Pneu para o carro? Posso te levar para trocar os pneus!” Não, não preciso de pneus. Então ele olha para um lado e para o outro, chega com a cabeça quase dentro do carro e fala bem baixinho “Quer vender o carro? Conheço compradores!” Ah, não aguentei e caí na gargalhada. O cara está achando que sou ladrão de carros! Não, obrigado! Ele riu de volta pra mim e eu segui viagem.

Ok! A estrada era um retão de 330 quilômetros de chão. De repente, uma blitz policial. Percebi que fui parado por conta da placa brasileira, o que já me fez subir as orelhas de alerta. Naquela época, uma das minhas funções no trabalho era ser oficial de justiça ad hoc em um cartório, então possuía uma carteira com o brasão da república e, como era a única carteira grande que eu tinha, deixava o documento do carro dentro dela. O policial pediu meus documentos. Quando peguei a carteira na mão já o vi abrindo os olhos de espanto. Perguntou o que eu fazia no Brasil, respondi. Com meus documentos nas mãos, pediu que eu abrisse a caçamba da pickup. Saí do carro e fomos lá atrás. Havia somente uma borracha protetora e algumas cordas, mais nada. Esse policial ficou uns 5 minutos olhando para meus documentos que estavam com ele e a carteira com o brasão na minha mão. E eu pensando “esse cara está querendo pedir propina mas está com medo” enquanto olhava sério nos olhos dele. Desistiu, entregou os documentos e permitiu que continuasse minha viagem. Ufa! Foi por pouco!

Mas a vida de viajante não é tão fácil assim. Cerca de 50 quilômetros adiante outro policial viu a placa do carro de longe e mandou encostar. Foi o mesmíssimo procedimento, com a diferença de que, ao mostrar a carteira para esse policial, ele enfiou a cabeça dentro do carro com um sorriso de um lado ao outro do rosto e perguntando “Uau! Onde consigo uma dessas?!?” Me segurei para ficar com a cara bem séria e respondi que eu trabalhava para o Estado brasileiro. Hum, ele baixou a bola e seguiu o procedimento padrão. Fomos para a parte traseira abrir a caçamba e fez a mesma coisa que o outro policial, segurando meus documentos alguns minutos enquanto pensava se pedia propina ou não. Então pediu para ver o que eu levava atrás do banco do passageiro. Fomos até lá, ele não achou nada, entregou os documentos e me liberou. Mas eis que quando estava passando para frente do carro, viu uma bolha em um dos pneus. Putzgrila! Não deu outra, começou aquele papinho de policial corrupto dizendo que teria que me multar ou apreender o carro e blá blá blá. Eu comecei a pegar o macaco e o step para trocar o pneu e ele não me deixou continuar. Na maior cara de pau, pediu 50 reais (em reais mesmo) para me deixar passar. Nesse momento já tinha percebido que teria que perder alguma coisa ali. Então passei a fazer o que um bom mão de vaca faria: negociar o valor da propina… kkkkkk… O policial parecia não acreditar no que estava ouvindo, mas o convenci a me liberar por 15 reais, uma boa economia, sob a desculpa de que ainda teria que pagar pedágios e o hotel em Assunção com o dinheiro que sobrasse.

Bom, contei a história até aqui para que o leitor entendesse o porque da decisão que tomei após a visita à capital do Paraguai. Há duas formas de retornar de Assunção à Foz do Iguaçu. Poderia seguir pela mesma estrada, rodando os cerca de 330km de volta e aguentar os policiais paraguaios mais uma vez, ou poderia cruzar a fronteira para a Argentina e voltar por lá, rodando pouco mais de 960km (mais que o dobro!). Para entender melhor, no mapa abaixo é possível visualizar as duas rotas entre Assunção e Foz do Iguaçu. Como estava com alguns dias de sobra e fazia muito tempo que não andava pelo norte da Argentina, optei pela segunda opção, assim aproveitaria para evitar a corrupção dos policiais. Até aí tranquilo, eu só não me preparei para a curiosidade do agente da aduana argentina.

Realizados os trâmites dos documentos para entrar na Argentina, segui com o carro até o agente aduaneiro, um rapaz de uns 22 ou 23 anos. Pegou meus documentos e já soltou a primeira pergunta “Vai pra onde?”. Eu, espontâneo, respondi com toda a sinceridade ingênua possível: “Estou voltando para o Brasil”. A cara de espanto dele já começou a me deixar preocupado. “Você vai para o Brasil por aqui? Por quê?”. Ai, ai, ai. O que a inocência não faz com a gente? No meio da resposta enrolada em portunhol, soltei que estava com receio dos policiais paraguaios pedirem propina. E então ele concluiu: “Hummmmm, está com medo de policiais, é?” Puuuuuuuuuuut, ele entendeu tudo errado! Daí em diante só consegui me enrolar mais ainda. Perguntou o que eu levava na caçamba da pickup e ao invés de dizer que não tinha nada, fui ser sincero novamente e disse que tinha algumas cordas de borracha (pra que citar isso?!?) e me atrapalhei no portunhol de novo. Não deu outra: “Encosta o carro ali na frente”.

Má, rapaz! Encostei o carro e quando desço vejo de longe o garoto aduaneiro chegando com a maior chave de fenda que já vi na minha vida! Virgimaria, pra que isso?!? Abri a porta traseira e o rapaz já foi desmontando o protetor da caçamba. Afe! Esse menino entrou debaixo do carro, depois bateu na lataria toda para ver se estava realmente oca. Seguiu para a frente do carro, abrindo a porta do passageiro. Pediu para baixar o vidro, procurou coisas atrás e embaixo do banco do passageiro, no porta luvas… ele fuçava em tudo! Já fazia uns 10 minutos que ele inspecionava a pickup e então me perguntou “Você está viajando sozinho por quê? Não tem amigos ou namorada?!?”… kkkkkkk… Pensei, essa é minha chance de dar uma carteirada para ver se acabava aquele processo logo. Soltei que não havia ninguém porque somente eu estava de folga, já que o “governo” havia me liberado aquela semana. Citei a palavra governo pra chamar a atenção dele mesmo. E ele caiu! “Você trabalha para o governo? Faz o quê?” Pronto! Era o que eu precisava. Abri a carteira e mostrei minha funcional. Ele pegou nas mãos, analisou, observou, procurou vestígios de ser falsa, examinou, refletiu, ponderou, estudou e todos os verbos possíveis ele usou enquanto olhava aquele documento… Depois de tudo isso, pensei: “Agora vai me liberar!” Hunpf! É muita inocência! Entregou o documento de volta já dizendo “Abra o capô do carro!” Ahhhhhhhhh, não creio!

O rapaz entrou debaixo do motor procurando produtos ou algo que mostrasse qualquer coisa errada que eu tivesse feito. Então ele voltou para o lado do motorista e me perguntou: “Você vem do Brasil até Assunção de carro sozinho e não está levando nada? Nada, nada?!?” Uai, só me cabia responder com minha sinceridade típica. Senhor (a essa altura já chamaria o garoto até de doutor, se ajudasse a me liberar logo), eu só estou levando minha mochila com roupas e as coisas que comprei em Assunção, mais nada! “Hum, então você comprou coisas?” Sim, comprei aquela garrafa de vinho (apontando para um vinho que tinha comprado à pedido da minha mãe para presentear alguém) e um telefone, só. Ele abriu um sorriso de felicidade. Os primeiros iPhone da Apple tinham acabado de ser lançados e por isso chamou a atenção dele que eu pudesse estar levando equipamentos caros. “Onde está esse telefone?” Debaixo do banco do motorista. Ele enfiou o braço lá no fundo e pegou a caixa dentro de uma sacola. Abriu tudo com pressa, já que não via a hora de descobrir algum mal feito, e deu de cara com o telefone fixo sem fio mais vagabundo que eu encontrei em Assunção. Era só um quebra-galho que eu precisava, uai! “Esse é o telefone?!? Esse? Mais nenhum?!?!?” Isso! Só esse mesmo.

O agente estava simplesmente inconformado e passou a apelar. “Olha só, você está levando algo ‘raro’?” O que você chama de raro? “Está levando drogas, armas, eletrônicos ou qualquer outro tipo de contrabando?!?” O leitor já leu aquela crônica de Stanislaw Pontepreta sobre uma velhinha contrabandista? Se não leu, leia agora aqui ou aqui antes de continuar para entender o que estou dizendo. Quando ele me fez aquela pergunta, lembrei na mesma hora desse texto pois a cara dele era a mesmíssima que eu imaginava para o policial da crônica naquela situação. Respondi: “Não estou levando nada ilegal! É só isso mesmo! Gosto de viajar de carro e só!” Ele estava decepcionado. Era muito óbvio pela feição em seu rosto de que ele não acreditava em mim. Para ele, eu estava com algo de errado e o estava vencendo. Então ele soltou um “Suma da minha frente!”, enquanto virava as costas para o carro.

Rapidinho obedeci a ordem, entrei no carro e acelerei. Dali para frente, aprendi. Todos os policiais que me paravam e perguntavam para onde estava indo, respondia na lata “Buenos Aires”. Pronto, não tive mais problemas. Mas o semblante do menino inconformado por “ter sido vencido”, aquele eu nunca vou esquecer.


 

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